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Thomas Mapfumo

thomas mapfumo rise upThomas Mapfumo nasceu em 1945 em Marondera, uma pequena cidade ao sul da capital da Rodésia, Salisbury. Passou seus primeiros dez anos de vida no campo com seus avós, trabalhando com gado, acordando muito antes do sol nascer para fazer as tarefas antes de ir para a escola. Embora sua vida estivesse inexoravelmente rumando em direção à guerra civil racial, Mapfumo estava vivendo uma vida à moda antiga, tradicional, longe da amargura das cidades e vilas. Um de seus maiores prazeres na época era a música do seu povo, os shona, música que ele experimentou em reuniões de família e de clãs, nada diferente do que tinham vivido seus antepassados ao longo de séculos. Músicas tradicionais infantis, músicas de celebração acompanhadas pelos tambores chamados ngoma e, especialmente, a música sagrada da mbira, um instrumento cuja bela e cíclica melodia poderia convocar a presença de espíritos ancestrais, formaram a base da personalidade musical de Mapfumo, uma força que continua a moldar a história e a vida espiritual de seu país.
Quando Mapfumo tinha dez anos, mudou-se para Mbare, o município negro mais pobre e mais complexo de Salisbury. A vida era diferente na residência urbana da sua mãe, padrasto, dois irmãos e duas irmãs. Mbare era um centro de protesto negro contra o regime rodesiano, e cena de ações policiais aleatórias destinadas a intimidar supostos rebeldes. O padastro de Mapfumo era ativo tanto na igreja cristã quanto nos tradicionais círculos religiosos shona. Ele ensinou aos seus filhos uma visão de mundo altamente moral que não via nenhuma contradição entre a crença em um todo-poderoso Deus cristão e espíritos shona ancestrais. Em Mbare, Mapfumo também ouviu o rádio pela primeira vez, sendo atraído pelo jazz africano de Joanesburgo e Bulawayo, clássicas big bands de rumba e, especialmente, R&B e soul.
Mapfumo começou a cantar e, na escola, entrou para sua primeira banda, a Zutu Brothers. Pelos próximos dez anos, enquanto a guerra de libertação transcorria, Mapfumo seguiu como um cantor itinerante. Tanto na Cosmic Four Dots, a banda onde aprendeu suas habilidades musicais básicas, quanto na Springfields, de muito mais sucesso, Mapfumo foi cantor de rock 'n' roll, o homem acusado de reproduzir performances vocais a la Elvis Presley, Bobby Darrin, Wilson Picket e Mick Jagger (até hoje, Mapfumo é uma "juke box ambulante" de hits da década de 1960!). Sua identidade como cantor fez dele uma espécie de rebelde feliz. Quando um dia a polícia foi até o bairro onde ele morava mandando todos saírem das casas, Mapfumo apareceu com a capa brilhante prateada que ele usava no palco. O espectáculo lúdico de desrespeito quase botou o cantor na cadeia. Mas um policial que era fã da banda Springfields entrou em cena e o liberou.
Em 1972, Mapfumo mudou-se para uma cidade mineira e formou uma banda chamada Hallelujah Chicken Run Band. A banda era paga para entreter os mineiros, mas os integrantes tinham que fazer outros trabalhos durante o dia, inclusive cuidar de galinheiros, daí o nome da banda (Chicken Run Band). Foi ali, trabalhando com o guitarrista Joshua Dube, que Mapfumo adaptou pela primeira vez canções do repertório mbira e as aproveitou no repertório afro-rock da banda. Cantar em Shona era incomum e, no contexto da escalada da guerra, uma atitude automaticamente política. Ao passo que Mapfumo continuava a crescer como compositor, sua devoção à música tradicional inevitavelmente o politizava.
Mapfumo então mudou-se e começou a trabalhar com a Acid Band, e logo depois com a Black Unlimited. Ele desenvolveu seu som pop mbira com os guitarristas Jonas Sithole e Leonard "Picket" Chiyangwa, o baixista Charles Makokova e outras inovadoras jovens músicos. As letras de Mapfumo refletiam as preocupações das pessoas ao seu redor - dificuldades na área rural, jovens que iam para a selva lutar, e um sentimento crescente de indignação com os governantes brancos, que tinham sistematicamente desvalorizado a cultura shona há quatro gerações. Os guerrilheiros tinham tomado para si o nome Chimurenga (luta no idioma shona), e Mapfumo decidiu chamar seu novo som de "música Chimurenga".
Mapfumo significa "lanças" em Shona, e seus primeiros singles, incluindo "Mothers, Send Your Children to War" e "Trouble in the Communal Lands", fizeram jus ao seu nome de combate. "As pessoas estavam sendo mortas por soldados", lembra Mapfumo. "Elas estavam fugindo de suas casas e indo morar na cidade, como posseiros. Muitos choravam quando ouviam as letras destas canções." A música chimurenga de Mapfumo capturou a imaginação dos negros da nação inteira. Perto do fim da guerra, Mapfumo foi preso por pouco tempo, numa tentativa do governo branco de usá-lo para conseguir apoio para uma última tentativa desesperada de agarrar-se a algum vestígio de poder. Mas a maré da história tinha virado e em 1980 Robert Mugabe foi eleito presidente de uma nova nação. Naquele ano, Thomas Mapfumo e a Black Unlimited dividiram o palco em Salisbury (hoje Harare) com Bob Marley and the Wailers.
Dando os primeiros passos de esperança, Mapfumo cantava canções de mobilização para os novos líderes. Mas se eles imaginavam Mapfumo como seu fantoche, logo descobriram o contrário, pois embora Mapfumo houvesse se tornado um herói nacional cantando músicas revolucionárias, sua mensagem mais profunda era realmente sobre a cultura, não sobre a política. Os zimbabuanos tinham sofrido uma lavagem cerebral por parte dos rodesianos, levando-os a abandonar seus caminhos ancestrais. Um governo negro foi apenas um primeiro passo em direção ao renascimento cultural que Mapfumo imaginou. Quando os líderes começaram a revelar-se como venais e corruptos, viram-se alvos da música Chimurenga. Em 1989, Mapfumo condenou a sujeira e as trapaças políticas na canção "Corrupção". No ano seguinte, na canção "Jojo", alertou os jovens para que não se deixassem ser usados por políticos sujos.
A música também evoluiu. No final dos anos 80, Mapfumo introduziu primeiro uma, depois duas, depois três mbiras à formação da banda, e ele chegou a pensar nelas como núcleo do som da Blacks Unlimited. Ele desafiou seus guitarristas, trompetistas e tecladistas a adaptarem-se às mbiras, e desafiou seus tocadores de mbira a aprenderem o jazz africano e a música "jit", que também foram elementos-chave no som Chimurenga. A banda começou sua turnê internacional, e gravou nos estúdios da Mango Records, de Chris Blackwell, os álbuns Corrupção (1989) e Chamunorwa (1990).
Nos anos 90, Mapfumo teve que enfrentar uma escolha entre se dedicar a uma carreira internacional ou manter o fogo ardendo em casa. Mas para ele, esta não era uma escolha. Ele viajou e lançou a sua música no estrangeiro, quando possível, mas manteve o foco de suas energias, lançando uma cassete de músicas novas a cada ano e tocando mais ou menos cinco noites por semana durante a alta temporada. Uma apresentação da Blacks Unlimited nesta época era uma extraordinária experiência comunal. Tudo começava às 8:00 da noite e podia ir até o amanhecer. A apresentação incluía profundos hinos mbira, reggae, jazz africano e R&B. As músicas denunciavam o alcoolismo, a AIDS, a violência doméstica e a devoção das pessoas pelas coisas estrangeiras - todo o preço que Mapfumo sentiu que os zimbabuanos haviam pago por abandonar sua cultura milenar.
No final dos anos 90, Mapfumo cada vez mais focava sua ira contra os líderes do país, que ele achava terem falhado. A rádio estatal por um tempo se recusou a tocar músicas mais críticas de seu álbum de 1999, Chimurenga Explosion, principalmente a canção "Disastre", que mostrava a situação do país em termos inequívocos. Em abril de 2000, o governo recebeu um revés eleitoral com a eleição de um número substancial de candidatos da oposição no parlamento. Entre as reações a isto foram incluídas ameaças contra Mapfumo, bem como forjadas acusações de que ele havia comprado carros roubados. Poucos meses depois, Mapfumo silenciosamente mudou com sua família para fora do país rumo ao Oregon, onde eles têm morado desde então. Mapfumo continua a gravar músicas incendiárias, sempre proibidas no Zimbábue, e até recentemente, retornava para tocar para seus fãs leais, arriscando-se a ser preso a cada visita. Em 2005, Thomas concluiu que não era mais seguro ir ao Zimbábue. Mas, embora no exílio, ele permanece envolvido e apaixonadamente criativo. Seu lançamento de 2005, Rise Up, mais uma vez, teve a honra de ser proibido pela rádio estatal do Zimbábue.
Apesar de toda a escuridão que o rodeia, Mapfumo permanece pacífico, alegre, apaixonado pela vida e pela música. Ele é dono de um time de futebol, o Sporting Lions, formado por meninos de Mbare. Mapfumo perdeu muitos grandes músicos para a AIDS e outras calamidades, mas sua banda continua forte como nunca, sempre reabastecida com jovens músicos desejosos de contribuir para a lenda. Os zimbabuanos carinhosamente o chamam de "Mukanya", uma referência ao totem da sua família, o babuíno, e mesmo que eles sejam seduzidos pela mais recente onda de hip-hop e ragga, permanecem em sintonia com as últimas palavras do Mukanya. Poucos líderes de bandas na África, ou em qualquer lugar, têm sido tão consistentemente relevantes para a vida de seu povo como Thomas Mapfumo.

 

Fonte: Afropop.org

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